FILOSOFIA E DIREITO
PASSAGEM DE NIETZSCHE
O juízo <<bom>>
não emana daqueles aquém se prodigalizou a <<bondade>>. Foram os
próprios <<bons>>, os homens distintos, os poderosos, os superiores
que julgaram <<boas>> as suas ações; isto é, <<de primeira
ordem>>, estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era
baixo, mesquinho, vulgar e vilão. Arrogavam-se da sua altura o direito de criar
valores e determinativos: que lhes importava a utilidade! O ponto de vista
utilitário é de todo o ponto inaplicável quando se trata da fonte viva das
apreciações supremas que constituem e distanciam as classes sociais; foi o
sentimento, não a utilidade – e não uma hora de exceção, senão em todo o tempo
– repito; a consciência da superioridade e a distância, o sentimento geral,
fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma
raça inferior e baixa, determinou a origem da antítese entre
<<bom>> e <<mau>>. (Este direito de dar nomes vai tão
longe que se pode considerar a própria origem da linguagem, como um ato de
autoridade que emana dos que dominam. Disseram: <<Isto é tal e tal
coisa>>, vincularam a um objeto ou a um fato, tal ou qual vocábulo, e
assim ficou). De maneira que primitivamente a palavra <<bom>> não
significava ação <<altruísta>>, como imaginam estes genealogistas
da moral. Foi antes ao declinar as apreciações aristocráticas quando a antítese
<<egoísta>> e <<desinteressada>>
(<<altruísta>>) se apoderou da consciência humana. O instinto de
dominar, acabou por encontrar a sua expressão. E até muito depois esse instinto
não dominou de tal modo que a avaliação moral ficasse presa e sujeita neste
contraste (como sucede, por exemplo, na Europa de hoje, onde esta preocupação
assumiu o caráter e a força obsessiva de uma ideia fixa).
A genealogia da moral. 3º
edição – 1976. Guimarães e Cia Editores. Lisboa.

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