ÁREAS DE INTERESSE: DIREITO, HISTÓRIA , FILOSOFIA (BIOÉTICA) E POLÍTICA.

terça-feira, 16 de abril de 2013


FILOSOFIA E DIREITO 
 PASSAGEM DE NIETZSCHE


O juízo <<bom>> não emana daqueles aquém se prodigalizou a <<bondade>>. Foram os próprios <<bons>>, os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram <<boas>> as suas ações; isto é, <<de primeira ordem>>, estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era baixo, mesquinho, vulgar e vilão. Arrogavam-se da sua altura o direito de criar valores e determinativos: que lhes importava a utilidade! O ponto de vista utilitário é de todo o ponto inaplicável quando se trata da fonte viva das apreciações supremas que constituem e distanciam as classes sociais; foi o sentimento, não a utilidade – e não uma hora de exceção, senão em todo o tempo – repito; a consciência da superioridade e a distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma raça inferior e baixa, determinou a origem da antítese entre <<bom>> e <<mau>>. (Este direito de dar nomes vai tão longe que se pode considerar a própria origem da linguagem, como um ato de autoridade que emana dos que dominam. Disseram: <<Isto é tal e tal coisa>>, vincularam a um objeto ou a um fato, tal ou qual vocábulo, e assim ficou). De maneira que primitivamente a palavra <<bom>> não significava ação <<altruísta>>, como imaginam estes genealogistas da moral. Foi antes ao declinar as apreciações aristocráticas quando a antítese <<egoísta>> e <<desinteressada>> (<<altruísta>>) se apoderou da consciência humana. O instinto de dominar, acabou por encontrar a sua expressão. E até muito depois esse instinto não dominou de tal modo que a avaliação moral ficasse presa e sujeita neste contraste (como sucede, por exemplo, na Europa de hoje, onde esta preocupação assumiu o caráter e a força obsessiva de uma ideia fixa).           


A genealogia da moral. 3º edição – 1976. Guimarães e Cia Editores. Lisboa.

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